Eu quero é botar meu bloco na rua…

Inquietante, enigmático, maluco beleza… Fez um vôo relâmpago pela década de setenta, mas deixou sua marca na nossa música.  Eu viajei de trem, pobre meu pai, cala a boca Zebedeu, eu quero é botar meu bloco na rua…  São algumas de suas pérolas. Morreu precocemente aos 47 anos, vítima da sede de viver tudo e beber todas… Grande Sérgio Sampaio!

Gil disse…

(Um pedacinho de uma entrevista dac coleção encontros)

“O fim do tropicalismo não foi por vontade própria, foi coisa do destino. De repente, a gente teve que parar o trabalho, foi preso, teve que sair do país. Então, já era outro fator, outra forma de movimento, mas que também foi positivo. O resultado está aí hoje, eu reputo a minha experiência lá fora como uma coisa fundamental na minha vida.

Só pra instigar… Leiam o livro que tem um monte de entrevistas de Gil, desde 1967 até 2007. Coleção Encontros da Azougue editorial,

organização de Sérgio Cohn, apresentação de Ana de Oliveira. Tem outros lançamentos bem interessantes, tipo, Jorge Mautner, Hélio Oiticica, , Tom Zé, Waly Salomão, Zé Celso Martinez Corrêa, Nise da Silveira, Roberto Piva,  etc, etc

Eu me lembro…

Um dia desses eu vi um filme lindo de Edgar Navarro, chamado “Eu me lembro”, um mergulho numa infância de cidade de interior, cheia de descobertas e brincadeiras e rituais de passagem, típicos de infâncias bem curtidas. Depois chega a adolecência e seus problemas e culpas, e finalmente a juventude, recheada de conflitos, drogas, viagens… E por aí vai. O filme mexeu com minhas lembranças também…

Eu me lembro muito bem das loucuras que vivemos na juventude durante os anos 70. Toda aquela transgressão e rebeldia, mil questionamentos, buscas espirituais, viagens transcendentais, viagens de carona, viagens de ácido, cogumelos, zabumba, ayauasca, são pedro, marijuana e o que pintasse…

Eu me lembro dos banhos de rio, todo mundo nu feito criança, sem maldade nenhuma. Depois todo mundo ia junto ver o pôr do sol, catar cogumelos pelos verdes pastos do fim do mundo…

Eu me lembro de como a gente gostava de ser natureba, comer arroz integral com gersal, sopa de missô e outras delícias da macrô. Se encontrar no Grão de arroz ou no Beco do mingau, só pra jogar conversa fora enquanto tomava um banchá  com pão de centeio.

Eu me lembro de como era gostoso tomar chuva, fazer yoga na praia, vestir uma bata indiana bem fininha e uma calça lee desbotada e bater perna mangueando uns trocados pelas ruas de Salvador, caminhando contra o vento sem lenço sem documento…

Eu me lembro das nossas casas sempre cheias de gente, compatilhando tudo. Casas coloridas, com móbiles e luminárias pendurados, plantas em suportes de macramês, estante de tijolos na sala coberta por esteiras e almofadas bordadas, cheiro de incenso e maconha, quadro de Che e o beijo de Klimt  na parede… Eu me lembro de nossas primeiras casas, lindas …

Eu me lembro também dos amigos que sumiam de repente, numa viagem sem volta pelos porões da ditadura.

Eu me lembro das cores e texturas, e dos cheiros e sabores daquela década lisérgica, psicodélica, subversivamente maravilhosa.

Eu me lembro de tantas coisas incríveis, loucas,  belas e barras que vivemos e que ficaram lá longe, num tempo mágico que povoa nossas memórias, atrás das cortinas diáfanas, iluminadas e coloridas que ornam nossas vidas e  misturam passado, presente, futuro. Nos tornando eternos, doces, bárbaros…

O trailler do filme “Eu me lembro”…

Os doces bárbaros…

Gil, Caetano, Betânia e Gal fizeram uma turnê bárbara em 76, compartilhando afetos e sons num lance incrível que emocionou o Brasil.

Com um figurino desbunde, eles interpretaram com primor, músicas que marcaram nossa época.

Numa atitude libertária, misturando psicodelia, fé e muita “viagem”, os doces bárbaros embalaram nossos sonhos e atiçaram nossa imaginação, nosso comportamento… Adoçando e ao mesmo tempo apimentando nossas vidas.

A prisão de Gilberto Gil, que na época mostrou uma lucidez e coerência que sempre foram marcantes e presentes em sua vida, revela o quanto é equivocado essa perseguição ao uso recreativo da maconha. A história mostra a trajetória impecável de Gil. Sua integridade como ministro da cultura, sua competência como  músico, e como o grande artista que ele é, e principalmente a pessoa especial que é Gilberto Passos Gil Moreira …

Quem assistir ao documentário saberá do que estou falando. Quem conhece Gil, também!

Viva os doces bárbaros! Por eles terem acrescentado algo de bom em nosssas vidas. E viva Gilberto Gil,  pela trajetória, pela coragem,  pela liberdade,  por ele ser quem é!

Quanto aquele incidente em Floripa… O depoimento daquele delegado é tão ridículo que parece surreal. Vejam esse documentário…

Provavelmente ele ficou conhecido como o delegado que prendeu Gilberto Gil, mas Gil não ficou conhecido como o artista que foi preso em Florianópolis…

A história não falha.

PS:  Assistam esse documentário na integra! Aqui só postei o trecho da prisão…

Mangueio…

Sair pra manguear… Era sair por aí com ou sem trampo, de porta em porta, ou  de bar em bar, pedindo alguma coisa. Ou um trocado pra completar o vinho, ou um rango pra matar a broca, ou uma roupa qualquer, de preferência um jeans, uma camiseta velha…

Pareciam, a primeira vista, com mendigos. Mas não eram. Tinham algo diferente. O olhar, talvez. Os cabelos, por certo. Um certo charme, um meio mistério, um ar sonhador…  Uma aura de sabedoria escondia-se ali.

Saiam pra manguear, como atores mambembes, encantar as pessoas, contar suas aventuras de estradas, matar a curiosidade alheia, responder perguntas complicadas: “Quem é você, de onde veio, pra onde vai?” Vocês são hippies???

Sair pra manguear era filosofia pura! Era psicoterapia também… Em grupo! Era o despertar de sonhos escondidos pra muitas pessoas que lhes davam um trocado pra completar o vinho. Elas gostariam de largar tudo também. Desatar o nó da gravata, calçar um chinelo, duas mudas de roupas na mochila, e pegar estrada, cujo destino, liberdade…

Por outro lado, pra quem estava mangueando, era um grande exercício de humildade, de aprendizagem, da perda da antiga identidade e o alcance de outros ganhos sutis, essenciais pro crescimento espiritual etc etc. Mas isso é  um outro papo… Não estou apta, não no momento!

Sair pra manguear era um grito de guerra, naqueles tempos de paz e amor…

Só quem viveu entende o que eu digo, eu acho…

Transa!

Transa, nos anos 70, era uma palavra usada demasiadamente, indiscriminadamente,  pra significar inúmeras coisas, ações e atitudes e etc.

Trocar era transar,  trabalhar era trampar e era transar também, namorar era paquerar e era transar.  As coisas bacanas ou não, em geral eram transas.

Transar era o verbo pra toda hora, era pau pra toda obra. Transar era fazer, brincar, curtir…

Eu tô afim de transar um rango massa, ou,  nós estamos transando uns trampos legais, ou transei aquela camiseta numa  jaqueta incrivel!! Ou então, estou transando com aquela menina! Eram expressões muito comuns no dia à dia daquela rapaziada colorida.

Hoje transar significa apenas o verbo transar. Claro que essa historia de  transar sexo sempre  é muito gostosa, muito preserosa… Mas tenho nostalgia dos tempos em que as palavras tinham mais poesia e mais versatilidade,  e as girias tinham tanto charme…

Transar o  amor  tinha um sabor especial de liberdade, transgressão e prazer. Transar era tão bacana! Numa época em que sexo fora do casamento era chamado de amor-livre…

Transa era mesmo uma parada legal, era um lance jóia, era qualquer coisa bacana, ou não!!! Transa era tudo!

Pra mim chega!

“Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar”.

(Tiago era seu filho e tinha quatro anos..)

Foi esse o bilhete que Torquato Neto deixou, ao suicidar-se, em 10 de novembro de 1972, um dia depois de ter completado 28 anos. Abriu o gás e se foi…

Fazia parte da turma da tropicália, foi um dos seus mentores intelectuais. Estudou no mesmo colégio de Gil em salvador. Conheceu Caetano, Betânia… Depois foi morar no Rio de Janeiro e mesmo sem diploma, exerceu o jornalismo. Casou com Ana… Morou em Paris, em londres…

Compôs entre outras, mamãe coragem e geléia geral. Duas músicas que marcaram a história da tropicália.

Trabalhou como ator no filme “Nosferatu”, de Ivan Cardoso, onde fez o papel do vampiro.

Travou umas brigas com o cinema novo, umas desavenças com a globo, com os meninos da Bahia…

Foi editor da revista Navilouca, cujo único número só saiu anos depois de sua morte… Foi um dos fundadores dos jornais “Flor do Mal” (junto  com Tite de Lemos, Rogério Duarte e Luis Carlos Maciel) e “Presença”.

O poeta se cansou e disse “chega”!  Mas deixou seu legado…

Ah! Aquelas mulheres…

São tantas, as mulheres que mexeram com nosso imaginário, com os nossos sonhos de liberdade. Que atiçaram nossa inércia, jogaram lenha na fogueira dos nossos inconformismos, e como diriam nossas mães, colocaram minhocas nas nossas cabeças… Elas existem desde os tempos imemoriais.  Foram queimadas nas fogueiras da inquisição,  mas dançaram nas fogueiras de Beltrane. Sobreviveram a todos os tipos de infortúnios e adversidades. Sobreviveram ao tempo e fizeram história, e viveram estórias, e as contaram e as  cantaram…   Com  o corpo,  garganta,  coração, mãos,  vibração, atitude, poesia… Ora com sorrisos, ora com lágrimas! Mas são mulheres que carregaram coragem por todo sempre.

Na década de 70, elas estavam super na “moda”, nós admirávamos aquelas mulheres que viveram (ou viviam)  à  frente de seu tempo, e acreditávamos que nós também estávamos vivendo à frente do nosso tempo, contaminadas pelo  espírito da  modernidade,  transgressão, inconformismo,  desejo tanto de mudar tudo…

São as mulheres das nossas vidas, de alguma forma…

Vale a pena relembra-las. Invoca-las.

Leila Diniz, Janis Joplin, Elis Regina, Frida Kahlo, Simone de Beauvoir, Zuzu angel, Brigitte  Bardot, Baby Consuelo, Isadora Duncan, Florbela Espanca, Dona Canô, Maria Betânia, Elza Soares, Virginia Wolf, Elke maravilha, Madre Teresa de Calcutá, Menininha do Gantois, Chiquinha Gonzaga, Cecília Meireles, Clarice lispector, Camille Claudel, Pagu, Nara Leão, Danuza,  Coco Chanel, Nise da Silveira, Cora Coralina, Carmem Miranda…  E Ana de Amsterdããããã… E por aí vai!

OS MANSOS HERDARÃO A TERRA….

Ecologia,  reciclagem, customização,  politicamente correto… Na década de 70 não me lembro de ter ouvido com tanta frequência essas palavras como costumamos ouvir nos dias de hoje. Mas garanto uma coisa: A essência que essas palavras trazem e a ação que provém delas faziam parte do nosso cotidiano, da maneira mais orgânica,  espontânea e  natural possível.

Éramos politicamente corretos sem nem ao menos saber o peso dessa expressão. Éramos corretos porque acreditávamos na igualdade, na fraternidade, na liberdade, na paz…  E vivíamos sob o signo do amor.

Consequentemente  respeitávamos tudo que nos rodeava e também nos preocupávamos profundamente com o destino do  planeta. Nossa mãe terra! Dividíamos nosso saudável alimento, nossos sonhos e delírios, nossas roupas, que eram sempre reaproveitadas e personalizadas com bordados, pinturas , apliques,  e duravam uma eternidade…  Nunca tínhamos mais do que precisávamos. Definitivamente  os sonhos de consumo não faziam parte da nossa vida cotidiana, preferíamos consumir sonhos…  Na verdade o que a  gente queria mesmo era paz, amor e muita viagem!

O rango tinha que ser natureba, a agricultura era orgânica… Os rios eram sagrados, as roupas de algodão.

Os sonhos compartilhados! Os filhos amamentados, criados livremente, ao som de canções, violões…

A vida era uma dádiva, uma oração diária. Os tempos eram de amor e paz, liberdade, esperança…

Éramos tão ingênuos… Acho que ainda somos, pois ainda carregamos a “chama”, essa que nos abranda o coração, esquenta a alma  e nos faz acreditar que seremos sempre bons e felizes.  E que ainda herdaremos a terra…

Nem sempre saudade é nostalgia…

Mas é que naquela época era tudo efervescência. Tudo estava acontecendo ao mesmo tempo. Quebrava-se tabus, rompia-se fronteiras, tentava-se de alguma maneira, não sei como, mas sem muito sucesso, mudar o mundo… As nossas asas mal cabiam em nós mesmos, nossos sonhos então…

Dançavamos e fazíamos amor suave e freneticamente, enquanto suavamos em nossas  calças coladinhas, unissex, boca de sinos lindas de plush vermelho, cabelões esvoaçantes adornados com fitas coloridas brilhantes… Fumávamos nossos cigarros índios passando de mão em mão e a criatividade não tinha limites, a liberdade pulsava e pulsava e pulsava. E tudo se refletia na música, no teatro, cinema… Depois as coisas ficaram meio mornas, né?

Já não sonhamos tantos sonhos

nem buscamos dentro de nós

santos ou demônios,

apenas somos,  e passamos…

Como nuvens, como transeuntes…

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