Acampar…

Acampar tinha um gosto especial, de liberdade, curtição, aventura… Era um exercício lúdico e belo de mergulhar nas nuances da natureza, compartilhar noites enluaradas com os amigos, tomar banho de rio, nus! Ver o sol nascer. Acender uma fogueira ao cair da tarde e rodar o cachimbo da paz sob as estrelas. Experimentar esses lances ancestrais… acampar tinha realmente um gosto diferente. eram os primeiros passos para experimentar a estrada, sentir o saborzinho de vida em grupo. Dividir sonhos, fazer planos mirabolantes de felicidade eterna. Amar livremente ao som dos ventos, e fazer amor debaixo de uma barraquinha escura… Depois, voltar pra casa e descobrir que a estrada é longa, e liberdade é muito mais que uma calça velha, azul e desbotada…


Carros transados…

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Apenas uma carona que me leve a cidade mais próxima…

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Será que ainda rola carona hoje em dia? Não digo aquela carona de um conhecido, ou do amigo de um amigo que por acaso está indo pro mesmo lugar que você, ou das carona planejadas pra economizar combustível… Não! Eu falo de carona com desconhecidos, num posto de gasolina na beira da estrada, polegar indicando a direção a seguir, mochilão nas costas, muita fé…

As pessoas ainda têm coragem de dar ou de pedir carona com a onda de violência, intolerância e desconfiança em  que vivemos? Ou carona é uma prática que ficou esquecida lá atrás, nos anos 70, e que de vez em quando vêm à tona nos papos de malucos remanescentes daquela década… Que se orgulham em contar das aventuras vividas nas boléias de caminhões, nas carrocerias empoeiradas dos chevroletes, percorrendo estradas não menos empoeiradas desse Brazilzão de Meu Deus. Bons tempos aqueles,  em que os termômetros marcavam baixa densidade de violência. Ela ainda estava apenas nas telas, e podia-se contar nos dedos as barbaridades gratuitas, as atrocidades de revirar o estômago… Tão comuns hoje!

Carona era um exercício lúdico de liberdade, de compartilhar viagens, viagens cheias de  conversas, altos papos, amenidades… Era o exercício de descobrir sobre as estradas e sonhos de completos desconhecidos, era também uma boa oportunidade de fazer novos amigos, embora fosse muito raro reencontrar alguém que um dia nos deu uma carona… Carona, era a possibilidade de chegar à cidade mais próxima, sem lenço, sem documento, sem hora marcada, com todo o tempo do mundo, cheio de histórias pra contar, e planos para um novo percurso… De carona!

Época em que também tinha-se o costume de usar o sexto sentido, o sentido da intuição. Era ela que nos guiava nas nossas caminhadas, porque também nem tudo eram flores naquela década, nem tudo era flower power! Tinha também muitas almas sebosas nas estradas, muita gente do mal…Era preciso intuição e fé na hora de escolher nossas caronas. É… A década de 70 foi realmente a década da liberdade, das loucuras, da rebeldia, e das caronas…

Será que ainda rola carona hoje em dia…

Pé na estrada…

“Logo cedo, pé na estrada… Pra não ter porém…” Gil tinha razão, o lance era sair cedinho. Mochila nas costas, um stop na padaria pra manguiar um pão quentinho e zarpar pra BR, afim de uma carona que nos levasse pra cidade mais próxima…

Era assim, nessa batida, que a malucada da estrada, ia conhecendo o Brasil, de norte a sul, leste a oeste… Conhecendo de verdade, o Brasil de dentro pra fora…

E nessas andanças, os encontros e desencontros, a troca de afetos e noites compartilhadas sob o céu estrelado de um vilarejo qualquer. Os andarilhos se encontravam e se reconheciam em qualquer lugar do mundo. Mas também entre eles, havia uma estécie de castas. Existiam os malucos astrais, os micróbios, os artês, os malucos de city, e até os malucos burgueses… Ah! e os malucos “caixão e vela preta”, esses eram da pesada mesmo, baixo astral total! Muito piores que os micróbios. Pois entre os micróbios tinham ainda, os micróbios astrais…

Mas o grande barato mesmo, era a vida nômade que levávamos, as surpresas e mudanças diárias. Éramos realmente, metamorfoses ambulantes. E curtíamos Raul, Novos Baianos, Caetano, Gil, Mutantes…

E olhávamos os lírios dos campos, e éramos como eles. Nem Salomão se vestiu com tanta glória!

Os nossos desessete anos eram leves como penas de gansos, e a liberdade nos ornava o corpo e a alma. E tinhamos uma inocência tão doce… Como já não existe mais. E uma alegria à flor da pele. E o sexo também era a flor da pele, livre e inocente.

Esse texto aqui está muito fora de moda e muito nostálgico. Piegas mesmo! Mas desde aquele tempo, eu imaginava que um dia isso soaria assim. Talvez, alguns poucos, pouquíssimos, gatos pingados, saibam de verdade do que estou falando. E não é só das caronas, das gírias, das vestimentas floridas, coloridas, exageradas, exuberantes, nem é só da calça desbotada, dos cabelos longos e despenteados, e nem é só do amor-livre, do sexo á flor da pele, nem do poder da flor, “flower power”! Nem dos desessete anos de sonho e de sangue e de América do sul, nem de tomar banho nu, e fumar baseados e fazer viagens de ácido, nem de tocar violão, nem sobre acabou chorare, ou quem não dormiu no sleep bag nem sequer sonhou… Nem “minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”… Não é nada disso!

Mas é sobre uma coisinha de nada… Que nem mesmo sei explicar…