Ah! Aquelas mulheres…

São tantas, as mulheres que mexeram com nosso imaginário, com os nossos sonhos de liberdade. Que atiçaram nossa inércia, jogaram lenha na fogueira dos nossos inconformismos, e como diriam nossas mães, colocaram minhocas nas nossas cabeças… Elas existem desde os tempos imemoriais.  Foram queimadas nas fogueiras da inquisição,  mas dançaram nas fogueiras de Beltrane. Sobreviveram a todos os tipos de infortúnios e adversidades. Sobreviveram ao tempo e fizeram história, e viveram estórias, e as contaram e as  cantaram…   Com  o corpo,  garganta,  coração, mãos,  vibração, atitude, poesia… Ora com sorrisos, ora com lágrimas! Mas são mulheres que carregaram coragem por todo sempre.

Na década de 70, elas estavam super na “moda”, nós admirávamos aquelas mulheres que viveram (ou viviam)  à  frente de seu tempo, e acreditávamos que nós também estávamos vivendo à frente do nosso tempo, contaminadas pelo  espírito da  modernidade,  transgressão, inconformismo,  desejo tanto de mudar tudo…

São as mulheres das nossas vidas, de alguma forma…

Vale a pena relembra-las. Invoca-las.

Leila Diniz, Janis Joplin, Elis Regina, Frida Kahlo, Simone de Beauvoir, Zuzu angel, Brigitte  Bardot, Baby Consuelo, Isadora Duncan, Florbela Espanca, Dona Canô, Maria Betânia, Elza Soares, Virginia Wolf, Elke maravilha, Madre Teresa de Calcutá, Menininha do Gantois, Chiquinha Gonzaga, Cecília Meireles, Clarice lispector, Camille Claudel, Pagu, Nara Leão, Danuza,  Coco Chanel, Nise da Silveira, Cora Coralina, Carmem Miranda…  E Ana de Amsterdããããã… E por aí vai!

Como eram leves meus desesseis anos…

camping hippie

As vezes, antes de dormir, quando os devaneios cavalgam  carneirinhos brancos, pulando a cerca das lembranças, e trazendo de volta tantos afetos guardados, momentos mágicos, que um dia foram o presente, e que agora são  imagens guardadas nas paredes da memória. Mas que de vez em quando cavalgam carneirinhos brancos e voltam pra nós…

Então fico aqui, debaixo dos lençois, deixando que essas imagens venham suavemente, e que de alguma maneira se materializem diante de mim,  e me envolvam nessa aura translúcida  de juventude e passado,  sensações,  aromas,  lembranças,  memórias,  afetos…

Me lembro dos meus desesseis, carregados nas costas,  espalhados na mochila, fluindo pelos póros… Como eram leves! Como eram livres, meus desesseis anos…

Andarilhava pela imensidão das praias do sul da bahia. tão vazias, tão lindas… Ao lado de amigos, jovens e belos e livres como eu. Buscávamos nada mais que não fosse,  viver o momento. Aquele momento e pronto!

Não queríamos  mais nada, além de sonhar,  amar,  e viajar para dentro de nós mesmos, ao som de Pink Floyd, Rolling Stones, Mutantes, Novos Baianos… Atrás de paz, talvez! Pois a espada da rebeldia, da inquietude, dos questionamentos, das  transgressões… pairavam sobre nossas cabeças,  ávidos por sangue novo!

Paz e espada viviam à nossa espreita…

Mas como eram leves em minhas costas,  aqueles desesseis anos… De sonhos, delírios,  amores, paz, rebeldia, liberdade, cigarros e som, muito som…

Ainda sonho, e acredito nos delírios e na rebeldia. Mesmo que os anos já não me sejam mais tão leves…  São ainda livres! Livres!

Rauuuuul Rauuuul

raul-seixas-1

Hoje me deu uma saudade danada de Raul… Não sei porque, me lembrei dele. (Cantarolei umas músicas inesquecíveis…)

Aquela energia meio estranha que ele tinha.  Inexplicável, incomun…

Nuns momentos ele era muito doce, muito terno… Noutros:  puro ácido, rascante, picante!  Eram duas faces tão antagônicas… Uma iluminada, outra no escuro. Como todos nós. Mas em Raul tudo  era muito, tudo era mais!

Ô Raul doido!

Maluco Beleza! Por qual galáxia andarás?

“E eu do meu lado aprendendo a ser louco”…

“Eu, eu ando de passo leve pra não acordar o dia
Sou da noite a companheira mais fiel qu’ela queria!
Yeah, yeah, yeah, yeah!
Amo a guerra, adoro o fogo
Elemento natural do jogo, senhores:
Jamais me revelarei! Jamais me revelarei!
Eu, eu ando de passo leve pra não acordar o dia
Sou da noite a companheira mais fiel qu’ela queria!
Yeah, yeah, yeah, yeah!
E quão longa é a noite.
A noite eterna do tempo
Se comparado ao curto sonho da vida
Chega enfeitando de azul
a grande amante dos homens
Guardando do sol, seu beijo incomum….. ah!
Seja bom ou o que não presta
Acendo as luzes para nossa festa, senhores:
Eu sou o mistério do sol! Eu sou o mistério do sol!
Eu, eu ando de passo leve pra não acordar o dia
Sou da noite a companheira mais fiel qu’ela queria!
Yeah, yeah, yeah, yeah!
Mas é com o sol que eu divido toda a minha energia
Eu sou a noite do tempo. Ele é o dia da vida
Ele é a luz que não morre quando chego e anoiteço
O sol dos dois horizontes a mais perfeita
harmonia…..
Eu, eu ando de passo leve pra não acordar o dia”…

Tamanco malandrinho…

Foi uma febre de tamanco no início dos anos 70, acho que principalmente na Bahia. Era um tamanquinho meio baixo, tinha uma faixa estreita com uma fivela, que cobria uma pequena parte da frente dos pés. Mas o grande barato mesmo, era arrastar os tamancos fazendo um barulho que enfurecia nossos pais. Meninas e meninos calçavam tamancos na Bahia. Pra ir pra praia, pra praça, pro teatro, cinema, pra tudo quanto era show… Até Antonio Carlos e Jocafi fizeram uma música que falava nos tais: “Vista sua mortalha azul turquesa mais bonita que a beleza mais humana que o perdão, calce seu tamanco malandrinho pintado de azul marinho…”
Eu gostava de fazer meus próprios tamancos. Comprava a estrutura de madeira (Ah! Os tamancos tinham que ser de madeira… Depois inventaram uns de uma fibra meio plástica… Mas aí ninguém já estava mais na onda dos tamancos, só aquleles que chegam depois, que pegam o
bonde andando…) inventava uns modelos meio loucos, cheios de pinturas e bordados, aproveitando pedaços de calça lee… Saudades do tamanco, malandrinho…tamanco

Gil Macrô…

No auge da macrô (como era chamada carinhosamente a macrobiótica), Gil comendo arroz integral, com hashi, numa capa de disco, era tudo que queríamos ver e curtir…

Foi massa! A turma que frequentava o “Grão de Arroz”, o “Beco do mingau”… Em Salvador,  não tinha outro assunto que não fosse o disco novo de Gil. Refazenda. “Abacateiro acataremos o teu ato nós também somos do mato como o pato e o leão”…  O reencontro com a natureza, a vida mais simples, alimentação saudável, yoga, plantar a própria horta, sem agrotóxicos…  parto natural, amamentar o bebê até que os dentes nascessem, roupas de algodão e fibras naturais, cigarros índios, artesanato e outras milongas mais…  O disco de Gil combinava com tudo isso. E a capa! Só a dos Novos Baianos, acabou chorare, pra comparar. E nos remeter a esse universo, tão presente, tão vivo, em nossas vidas hippies , dos anos 70.

Eu amo Gil. Por tudo que ele cantou, por tudo que ele compôs, fez e disse. Por tudo que ele viveu e mostrou, e nunca teve medo de ser quem sempre foi. Porque ele se expressou e se expôs como ninguém. Porque ele é um homem lindo e livre, um homem feliz. “Abacateiro sabes ao que estou me referindo porque todo tamarindo tem…  O seu agosto azedo, cedo, antes que janeiro doce manga venha a ser também. Abacateiro serás meu parceiro solitário nesse itinerário da leveza pelo ar, abacateiro saiba que na refazenda tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar… Refazendo tudo, guarirobaaaaaa!

Saravá! Gilberto Gil…