As festas, Ah! As festas…

É muito comum encontrar pessoas procurando nas lojas “Indianas” e afins, por roupas, bijuterias, perucas etc, que remetam aos anos 70. São as famosas festas “relembrando os anos 70″… Meus baús já foram fuçados muitas vezes!

As festas nos anos 70 eram incomparáveis, irresistiveis, maravilhosas. Não me refiro as festas comuns,  dessas que hoje as pessoas querem relembrar, e normalmente conseguem fazer uma boa réplica. Com as perucas black power e roupas floridas, cuba libre e etc.

Estou falando mesmo das festas  ‘cabeças”, das festas de maluco beleza. Daqueles festas hippies, psicodélicas, lisérgicas… Embaladas ao som de Bob Dylan, pink Floyd, Gil, Caetano… Dedilhados nas violas, acompanhadas por instrumentos de percursão inventados na hora, e o coro harmonioso e tranquilo de quem nem mesmo sabia cantar. Ou uma vitrolinha rodando LPs dos bons!

Festas coloridas, perfumadas por incensos, patchouli, almíscar. Abajour lilás, luminárias acesas, almofadas espalhadas pelo chão, tapetes mágicos, as pessoas sentadas em lótus, deitadas, esparramadas e relaxadas.  Marijuana rodando de mão em mão, cachimbo da paz. Paz e amor brilhando nos olhos da roda, que não tinha pressa, cujo compromisso era apenas com a vida. E a vida  naquele momento era sinônimo de liberdade.

As festas eram verdadeiramente compartilhadas, curtidas…  As pessoas ficavam juntinhas, se abraçavam, se olhavam nos olhos e batiam longos papos loucos, sobre tudo,  sobre qualquer coisa, sobre prá lá de Marrakesh…

É verdade, ando meio nostálgica. Não aguento mais essas festas barulhentas demais, com biritas demais, com as pessoas querendo esperramar seus egos inflados demais…  E saltos muito altos, e roupas muito apertadas. Essas festas em que todos se olham de cima a baixo mas ninguém se vê realmente,  se enroscam uns nos outros (quando o álcool sobe a cabeça) mas não se abraçam de verdade.

Ando enjoada,  abusada…  Mesmo das festas onde todos são conhecidos, todos  se respeitam,  mas ainda assim  não entram na mesma sintonia, nem rola um clima de alto astral, pois não estão na mesma vibração, compartilhando afetos e alegrias…

É… Ando mesmo meio nostálgica,  e muito chata! Eu quero minhas festas de volta…

Eu me lembro…

Um dia desses eu vi um filme lindo de Edgar Navarro, chamado “Eu me lembro”, um mergulho numa infância de cidade de interior, cheia de descobertas e brincadeiras e rituais de passagem, típicos de infâncias bem curtidas. Depois chega a adolecência e seus problemas e culpas, e finalmente a juventude, recheada de conflitos, drogas, viagens… E por aí vai. O filme mexeu com minhas lembranças também…

Eu me lembro muito bem das loucuras que vivemos na juventude durante os anos 70. Toda aquela transgressão e rebeldia, mil questionamentos, buscas espirituais, viagens transcendentais, viagens de carona, viagens de ácido, cogumelos, zabumba, ayauasca, são pedro, marijuana e o que pintasse…

Eu me lembro dos banhos de rio, todo mundo nu feito criança, sem maldade nenhuma. Depois todo mundo ia junto ver o pôr do sol, catar cogumelos pelos verdes pastos do fim do mundo…

Eu me lembro de como a gente gostava de ser natureba, comer arroz integral com gersal, sopa de missô e outras delícias da macrô. Se encontrar no Grão de arroz ou no Beco do mingau, só pra jogar conversa fora enquanto tomava um banchá  com pão de centeio.

Eu me lembro de como era gostoso tomar chuva, fazer yoga na praia, vestir uma bata indiana bem fininha e uma calça lee desbotada e bater perna mangueando uns trocados pelas ruas de Salvador, caminhando contra o vento sem lenço sem documento…

Eu me lembro das nossas casas sempre cheias de gente, compatilhando tudo. Casas coloridas, com móbiles e luminárias pendurados, plantas em suportes de macramês, estante de tijolos na sala coberta por esteiras e almofadas bordadas, cheiro de incenso e maconha, quadro de Che e o beijo de Klimt  na parede… Eu me lembro de nossas primeiras casas, lindas …

Eu me lembro também dos amigos que sumiam de repente, numa viagem sem volta pelos porões da ditadura.

Eu me lembro das cores e texturas, e dos cheiros e sabores daquela década lisérgica, psicodélica, subversivamente maravilhosa.

Eu me lembro de tantas coisas incríveis, loucas,  belas e barras que vivemos e que ficaram lá longe, num tempo mágico que povoa nossas memórias, atrás das cortinas diáfanas, iluminadas e coloridas que ornam nossas vidas e  misturam passado, presente, futuro. Nos tornando eternos, doces, bárbaros…

O trailler do filme “Eu me lembro”…

Nem sempre saudade é nostalgia…

Mas é que naquela época era tudo efervescência. Tudo estava acontecendo ao mesmo tempo. Quebrava-se tabus, rompia-se fronteiras, tentava-se de alguma maneira, não sei como, mas sem muito sucesso, mudar o mundo… As nossas asas mal cabiam em nós mesmos, nossos sonhos então…

Dançavamos e fazíamos amor suave e freneticamente, enquanto suavamos em nossas  calças coladinhas, unissex, boca de sinos lindas de plush vermelho, cabelões esvoaçantes adornados com fitas coloridas brilhantes… Fumávamos nossos cigarros índios passando de mão em mão e a criatividade não tinha limites, a liberdade pulsava e pulsava e pulsava. E tudo se refletia na música, no teatro, cinema… Depois as coisas ficaram meio mornas, né?

Já não sonhamos tantos sonhos

nem buscamos dentro de nós

santos ou demônios,

apenas somos,  e passamos…

Como nuvens, como transeuntes…

O velho Alceu…

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Um dia desses estava escutando o mais novo trabalho de Alceu Valença, “Ciranda mourisca”. Um disco lindo. Muitas coisas antigas com uma roupagem diferente. Isso que chamam de releitura… Mas o fato é que fiquei pensando em Alceu, e acho que ele foi meio injustiçado. Não sei se é bem isso, mas acho que ele não tem o lugar que merece dentro do cenário musical brasileiro. Inclusive dentro da própria cena Pernambucana. Esqueceram que Alceu sempre foi um inovador, misturou, de forma espetacular, essa coisa de batida de raíz com pitadas generosas de modernidade, misturou rural com urbano, maracatu com rock… E quando Chico Science chegou, Alceu já tinha uma cama pronta. Não que Chico não tenha seu grandississsissimo valor! Mas Alceu, desde os anos 70 foi instigante, inovador, extremamente criativo…  Hoje, parece que pouca gente tá reconhecendo isso. Alceu é muitíssimo talentoso, independente de suas preferências políticas partidárias e outras cositas más. Mas isso é outra história, também.

“Eu  desconfio dos cabelos longos da sua cabeça se você deixou crescer de um ano pra cá… Eu desconfio no sentido estrito, eu desconfio no sentido lato, eu desconfio dos cabelos longos, eu desconfio do diabo a quatro… do diabo a quatro…

“O mundo é pequeno pra caramba”…

Mundo pequeno, mundo imenso, mundo sem dono, mundo cão…
Mundo cruel, mundo doente, mundo cigano, mundo vilão!
Mundo ligeiro, mundo lindo, mundo livre, mundo adverso, mundo perverso…
Mundão!
Mundão véio sem porteira, sem fronteira, sem eira nem beira…
Mundão de nós todos. De todas as tribos, de todas as línguas, de todos os povos,
de todas as raças, de todas as cores, e sabores, e odores. Mundão de todas as dores e dissabores. De Déboras, de Dolores, de frutas, de drosófilas, de filas enormes, de ilhas, de oceanos, de vulcões, florestas,desertos… De desertores, ladrões, santos, profetas… De darks, punks, gays, neohippies, mochileiros, internautas, donas de casa, crianças, cristãos, mulçumanos, caretas, loucos, profanos…
Mundão de um tudo! Mundo desmundo! “mundo fantasmo”, mundo mágico, desumano… Mundo fantástico, mundo caótico. Mundo tirano!
Mundo novo, mundo velho, mundo mãe, mundo, um ovo! Mundo, um moinho… Mundo, mundo, mundo…

Tropicália…

Caminhando contra o vento, sem lenço sem documento…

Não vou falar sobre esse movimento, que talvez tenha sido o mais importante na Música Popular Brasileira.

Quero apenas lembrar a Tropicália sobre o aspecto comportamental, visual, poético…

Caetano, Gil, Mautner e toda a turma que construiu essa história, de uma nova música no cenário brasileiro, de uma nova forma de se expressar , de se vestir, enfim de uma postura libertária diante da sociedade, da vida… Tiveram um papel fundamental na revolução dos costumes no Brasil.

Tudo isso abriu caminho pra o que somos hoje. Ainda bebemos água fresca, dessa fonte inesgotável.

Dessa fonte que já saciou a sede de tanta gente…

Música Brasileira…

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“Ai, ai, meu Deus

o que foi que aconteceu/

com a música popular brasileira?

Todos falam sério, todos eles levam a sério/

mas esse sério me parece brincadeira’.

(Rita Lee e Paulo Coelho, “Arrombou a festa”, 1977)