Uma vez hippie sempre hippie…

Não é apenas um cabelão e roupas coloridas extravagantes, falar gírias, barba grande, fumar um, pegar estrada… É algo muito mais profundo,  é a pura essência de liberdade,  e uma forma de viver diferente,  colorida, especial. Não é ficar sem tomar banho, ou cheio de piolhos, mas é um bem querer e um cuidado com o corpo de uma maneira destinta, é saber curtir o proprio suor, a poeira que o vento trás, os pés enfiados no chão de terra,  sem as neuroses e exageros de limpeza da maioria das pessoas. Viver intensamente cada momento, sem lenço nem gravata, sendo meio louco, moleque, bem humorado, fora dos padrões,  fora da rigidez. Sem ser tão exigente consigo mesmo.  Pra não chegar aos oitenta e divagar como o poeta…

“Se eu pudesse viver novamente a minha vida,

na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido,

na verdade bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais,

contemplaria mais entardeceres,

subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui…

Começaria a andar descalço no início da primavera

e… continuaria até o final do outono.
Jamais experimentaria os sentimentos de culpa ou de ódio.
Teria amado mais a liberdade e teria mais amores do que tive.
Viveria cada dia como se fosse um prêmio
E como se fosse o último.
Daria mais voltas em minha rua,

contemplaria mais amanheceres e
Brincaria mais do que brinquei”…   (Jorge Luis Borges)

O lance é mergulhar  na natureza sem medos nem pudores, respeitar eessa grande genitora, defende-la sempre,  ser natureba mesmo! Arroz integral, gersal, missô, flores, frutas, chás de ervas, de plantas de poderes, banho de rio, banho de cachoeira,  banho de luz. Reverência ao rei Sol e mãe Lua… Viver uma liberdade que vem de dentro, se aceitar verdadeiramente, tirar todas  as máscaras, se defrontar consigo próprio e não ter medo de quem você é, o que você quer…  Fazer quase sempre somente o que está afim. Dinheiro é bom mas sem escravidão! Viver uma vida simples,  mas cheia de beleza, cercada de coisas que você gosta, consumindo  apenas o necessário, sem esquecer de dividir o que sobrar. Ser feliz com o que tem, não ter inveja,  nem ódio, nem fazer concessões que coloque em risco sua felicidade. Falar o que pensa, falar a verdade. Hastear suas bandeiras, ser o que quiser ser, perder o medo do rídiculo. Abraçar apertado e beijar as pessoas que ama olhando-as nos olhos. Agradecer sempre e ter muita fé numa força maior, seja Buda, Kryshna, Cristo… Dançar, cantar, recitar, tocar um instrumento, fazer arte, artesananto. Usar as mãos, o corpo…  Pra se expressar. Ter consciência de que é uma pessoa do bem,  enviada por Deus, e que tem o compromisso de compartilhar alegria, liberdade, harmonia, bondade, beleza, paz,  amor… Mas saber que é humano e imperfeito! Não guardar rancores nem culpas…  Ser leve, claro e profundo!

Ser hippie pra mim é ser assim… É assim que eu comecei a ser desde a adolecência, quando experimentei os primeiros mergulhos dentro de mim mesma,  quando peguei a estrada, mochila nas costas, alguns piolhos ao longo do caminho… E é assim que tenho sido minha vida inteira. Pelo menos tenho tentado ser… É assim que eu gosto de ser! Uma vez hippie, sempre hippie!

Uma vez hippie, sempre hippie…

É quase como dizer que não existe ex-hippie! Salvo pouquíssimas exceções, apenas pra não fugir à regra…

Todos os hippies que conheci ao longo da minha jornada de mais de três décadas, nunca deixaram de ser hippies. Muitos cortaram o cabelo, deixaram de vender pulseirinhas e outras bugingangas, de dormir nas praças, manguiar, comer cogumelos… Outros até viraram empresários, ou artistas de sucesso. Mas nunca deixaram de ser hippies, não completamente! É uma coisa muito sutil, como uma tatuagem escondida pela manga da camisa, ninguém vê, mas de repente um pequeno movimento, e ela aparece toda colorida, dando a maior pinta!

Um caso interessante aconteceu comigo, aliás aconteceram muitos desse gênero, mas vou contar só um…

Sou uma desses hippies que se tornaram empresários. Um dia resolvi abrir mais uma loja, num shopping bacana. Lá vou eu, com minha filha e meu companheiro. Tudo resolvido, loja escolhida… Vamos lá, pra fechar o contrato, assinar os papéis… Eu, me sentindo toda arrumada, chiquérrima! Fomos! Quando estacionamos o carro, fui a primeira a saltar. O gurdador de carros, um rapaz de uns vinte anos, olhou pra mim e perguntou, na lata! “A senhora é hippis?” Eu respondi: Sou! E eles dois, também, apontei pra minha filha e pro meu companheiro. E o rapaz completou com um sorriso de quem sabe das coisas, do alto dos seus vinte anos: “Eu tinha certeeeeeza”!

Pois é… Não dá pra negar. E pra que negar? É uma das tatuagens mais bacanas que trago comigo, e faço questão de arregaçar a manga da camisa pra mostra-la. É uma tatuagem invisível aos olhos, mas foi colorida com as tintas da liberdade, dos afetos, das viagens, das histórias contadas e vividas sob a luz das estrelas.

Uma vez hippie, sempre hippie. Essas bandeiras de peace and love, flower power… Podem até estar fora de moda, e não passarem de resquícios de outros tempos. Não importa! A essência está aí e ainda traz odores e sabores de uma história muito louca e muito linda, cheia de paz e amor.,. Bicho!