Trampo, artesanato e outros babados.

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Badulaques, bijus, pulseiras, brincos, colares, macramês, camisetas, quadros de linhas, uma infinidade de objetos em  durepox, mocassins, enfim…  Trampo de maluco é de uma variedade e criatividade impressionantes!

As vêzes se trampava apenas o nescessário pra passar o dia: Rango, dormida, bebida, fumo… As vezes se trampava pra juntar um troco e fazer novos percursos, novas viagens. As vezes se trampava pra juntar um troco e construir uma casinha ou simplesmente pra alugar um mocó. Se trampava muito pra esperar o filho nascer e poder ficar um tempo sem fazer nada, só lambendo a cria…

Tinha muito maluco que não trampava de jeito nenhum. Só mangueava. Outros apenas tocavam um instrumento  e passavam o chapéu. Conseguiam alguns trocados.

E ainda tinha os micróbios, aqueles que não faziam nada e ainda atrapalhavam os que faziam alguma coisa.

Mas geralmente quase todo hippie era artesão. E era com  o artesanato que dava pra sobreviver e viajar. Bastava um rolinho de arame, algumas miçangas, uns dois ou três tipos de alicate, ( ou apenas um jacaré e um de bico) e pronto: Dava pra ir pra qualquer canto. Era esse o milagre que faziam nossas mãos, e que nos enchiam de auto estima e dignidade. Não éramos vagabundos, éramos hippies,  artesãos… Com muito orgulho!

Apenas uma carona que me leve a cidade mais próxima…

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Será que ainda rola carona hoje em dia? Não digo aquela carona de um conhecido, ou do amigo de um amigo que por acaso está indo pro mesmo lugar que você, ou das carona planejadas pra economizar combustível… Não! Eu falo de carona com desconhecidos, num posto de gasolina na beira da estrada, polegar indicando a direção a seguir, mochilão nas costas, muita fé…

As pessoas ainda têm coragem de dar ou de pedir carona com a onda de violência, intolerância e desconfiança em  que vivemos? Ou carona é uma prática que ficou esquecida lá atrás, nos anos 70, e que de vez em quando vêm à tona nos papos de malucos remanescentes daquela década… Que se orgulham em contar das aventuras vividas nas boléias de caminhões, nas carrocerias empoeiradas dos chevroletes, percorrendo estradas não menos empoeiradas desse Brazilzão de Meu Deus. Bons tempos aqueles,  em que os termômetros marcavam baixa densidade de violência. Ela ainda estava apenas nas telas, e podia-se contar nos dedos as barbaridades gratuitas, as atrocidades de revirar o estômago… Tão comuns hoje!

Carona era um exercício lúdico de liberdade, de compartilhar viagens, viagens cheias de  conversas, altos papos, amenidades… Era o exercício de descobrir sobre as estradas e sonhos de completos desconhecidos, era também uma boa oportunidade de fazer novos amigos, embora fosse muito raro reencontrar alguém que um dia nos deu uma carona… Carona, era a possibilidade de chegar à cidade mais próxima, sem lenço, sem documento, sem hora marcada, com todo o tempo do mundo, cheio de histórias pra contar, e planos para um novo percurso… De carona!

Época em que também tinha-se o costume de usar o sexto sentido, o sentido da intuição. Era ela que nos guiava nas nossas caminhadas, porque também nem tudo eram flores naquela década, nem tudo era flower power! Tinha também muitas almas sebosas nas estradas, muita gente do mal…Era preciso intuição e fé na hora de escolher nossas caronas. É… A década de 70 foi realmente a década da liberdade, das loucuras, da rebeldia, e das caronas…

Será que ainda rola carona hoje em dia…

O velho Alceu…

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Um dia desses estava escutando o mais novo trabalho de Alceu Valença, “Ciranda mourisca”. Um disco lindo. Muitas coisas antigas com uma roupagem diferente. Isso que chamam de releitura… Mas o fato é que fiquei pensando em Alceu, e acho que ele foi meio injustiçado. Não sei se é bem isso, mas acho que ele não tem o lugar que merece dentro do cenário musical brasileiro. Inclusive dentro da própria cena Pernambucana. Esqueceram que Alceu sempre foi um inovador, misturou, de forma espetacular, essa coisa de batida de raíz com pitadas generosas de modernidade, misturou rural com urbano, maracatu com rock… E quando Chico Science chegou, Alceu já tinha uma cama pronta. Não que Chico não tenha seu grandississsissimo valor! Mas Alceu, desde os anos 70 foi instigante, inovador, extremamente criativo…  Hoje, parece que pouca gente tá reconhecendo isso. Alceu é muitíssimo talentoso, independente de suas preferências políticas partidárias e outras cositas más. Mas isso é outra história, também.

“Eu  desconfio dos cabelos longos da sua cabeça se você deixou crescer de um ano pra cá… Eu desconfio no sentido estrito, eu desconfio no sentido lato, eu desconfio dos cabelos longos, eu desconfio do diabo a quatro… do diabo a quatro…