Gil Macrô…

No auge da macrô (como era chamada carinhosamente a macrobiótica), Gil comendo arroz integral, com hashi, numa capa de disco, era tudo que queríamos ver e curtir…

Foi massa! A turma que frequentava o “Grão de Arroz”, o “Beco do mingau”… Em Salvador,  não tinha outro assunto que não fosse o disco novo de Gil. Refazenda. “Abacateiro acataremos o teu ato nós também somos do mato como o pato e o leão”…  O reencontro com a natureza, a vida mais simples, alimentação saudável, yoga, plantar a própria horta, sem agrotóxicos…  parto natural, amamentar o bebê até que os dentes nascessem, roupas de algodão e fibras naturais, cigarros índios, artesanato e outras milongas mais…  O disco de Gil combinava com tudo isso. E a capa! Só a dos Novos Baianos, acabou chorare, pra comparar. E nos remeter a esse universo, tão presente, tão vivo, em nossas vidas hippies , dos anos 70.

Eu amo Gil. Por tudo que ele cantou, por tudo que ele compôs, fez e disse. Por tudo que ele viveu e mostrou, e nunca teve medo de ser quem sempre foi. Porque ele se expressou e se expôs como ninguém. Porque ele é um homem lindo e livre, um homem feliz. “Abacateiro sabes ao que estou me referindo porque todo tamarindo tem…  O seu agosto azedo, cedo, antes que janeiro doce manga venha a ser também. Abacateiro serás meu parceiro solitário nesse itinerário da leveza pelo ar, abacateiro saiba que na refazenda tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar… Refazendo tudo, guarirobaaaaaa!

Saravá! Gilberto Gil…

Jóia… Jóia rara!

Jóia foi uma pérola que embalou nossos sonhos em meados de 70. Primeiro o desbunde total, daquele beleza de família, nua… Derrubando padrões e tabus, de uma forma tão singela, tão poética… Estampando a capa do LP, nos deixando de bobeira, e os caretas, perplexos! Foi uma coisa linda que aconteceu na história da música brasileira. Um disco jóia, uma foto rara. Lindos, Caetano, Dedé e Moreno… Os anos 70 foram mesmo mágicos!

Uma vez hippie, sempre hippie…

É quase como dizer que não existe ex-hippie! Salvo pouquíssimas exceções, apenas pra não fugir à regra…

Todos os hippies que conheci ao longo da minha jornada de mais de três décadas, nunca deixaram de ser hippies. Muitos cortaram o cabelo, deixaram de vender pulseirinhas e outras bugingangas, de dormir nas praças, manguiar, comer cogumelos… Outros até viraram empresários, ou artistas de sucesso. Mas nunca deixaram de ser hippies, não completamente! É uma coisa muito sutil, como uma tatuagem escondida pela manga da camisa, ninguém vê, mas de repente um pequeno movimento, e ela aparece toda colorida, dando a maior pinta!

Um caso interessante aconteceu comigo, aliás aconteceram muitos desse gênero, mas vou contar só um…

Sou uma desses hippies que se tornaram empresários. Um dia resolvi abrir mais uma loja, num shopping bacana. Lá vou eu, com minha filha e meu companheiro. Tudo resolvido, loja escolhida… Vamos lá, pra fechar o contrato, assinar os papéis… Eu, me sentindo toda arrumada, chiquérrima! Fomos! Quando estacionamos o carro, fui a primeira a saltar. O gurdador de carros, um rapaz de uns vinte anos, olhou pra mim e perguntou, na lata! “A senhora é hippis?” Eu respondi: Sou! E eles dois, também, apontei pra minha filha e pro meu companheiro. E o rapaz completou com um sorriso de quem sabe das coisas, do alto dos seus vinte anos: “Eu tinha certeeeeeza”!

Pois é… Não dá pra negar. E pra que negar? É uma das tatuagens mais bacanas que trago comigo, e faço questão de arregaçar a manga da camisa pra mostra-la. É uma tatuagem invisível aos olhos, mas foi colorida com as tintas da liberdade, dos afetos, das viagens, das histórias contadas e vividas sob a luz das estrelas.

Uma vez hippie, sempre hippie. Essas bandeiras de peace and love, flower power… Podem até estar fora de moda, e não passarem de resquícios de outros tempos. Não importa! A essência está aí e ainda traz odores e sabores de uma história muito louca e muito linda, cheia de paz e amor.,. Bicho!

Ando meio desligado…

Olho e não vejo nada…

Nada de novo rolando. Nada que mereça um olhar mais pausado, nada que mereça aplausos entusiasmados, nada que nos deixe extasiados, que nos tire do chão. Que nos tire do sério… Nada que subverta a ordem, nada de energia transgressora, nada de onda revolucionária, nada de rebeldia nem bom humor na atual cena do rock brasileiro.

Carta ao viajante…

A viagem começa quando aportamos nesse planeta, vindos não sei de onde e trazendo na pele um cheiro especial. Um cheiro do cosmos, talvez!

O primeiro grito! Um choro… um gemido.

Depois aprendemos a sorrir, falar, andar, correr… Enfim…
a viagem está só começando. Deram-nos à luz! Viajamos pela luz e pela penumbra, viajamos nos sons, nos movimentos, nas cores e formas, nos vultos, na inconsciencia, na ignorancia, na aprendizagem, na sabedoria… Quiçá na consciencia plena! Viajamos! A jornada pode ser longa ou curta, poderemos ter todo o tempo do mundo, ou o tempo pode nos virar as costas. Viajamos por estradas largas, claras, floridas, estreitas, íngremes, asfaltadas ou enlameadas. Atolamos! Capotamos! Pode pintar socorro, ou não! Talvez saiamos ilesos, talvez feridos, ou apenas arranhões! Viajamos! Pelos verdes vales do fim do mundo, ou somente nos fins de semana, ou pelo quintal de casa, ou sentados na varanda. Mesmo assim viajamos. Sós! com amores ou amigos, com fantasmas… Alegres ou tristes, sonhadores, cabisbaixos, desiludidos, angustiados, desenfreados, perpléxos! Com bagagem, com excesso, sem nada! Sem lenço sem documento! De carona, a pé ou de avião. Viajamos! Não importa como, não importa o veículo, nem o percurso, nem as distancias, nem os atrazos, nem os percalços, nem estar dormindo ou acordados. Viajamos! Viajaremos sempre, enquanto houver vida, porque a vida é a viagem e a paisagem é tudo em volta. A morte? talvez seja apenas mais uma conexão!

“O mundo é pequeno pra caramba”…

Mundo pequeno, mundo imenso, mundo sem dono, mundo cão…
Mundo cruel, mundo doente, mundo cigano, mundo vilão!
Mundo ligeiro, mundo lindo, mundo livre, mundo adverso, mundo perverso…
Mundão!
Mundão véio sem porteira, sem fronteira, sem eira nem beira…
Mundão de nós todos. De todas as tribos, de todas as línguas, de todos os povos,
de todas as raças, de todas as cores, e sabores, e odores. Mundão de todas as dores e dissabores. De Déboras, de Dolores, de frutas, de drosófilas, de filas enormes, de ilhas, de oceanos, de vulcões, florestas,desertos… De desertores, ladrões, santos, profetas… De darks, punks, gays, neohippies, mochileiros, internautas, donas de casa, crianças, cristãos, mulçumanos, caretas, loucos, profanos…
Mundão de um tudo! Mundo desmundo! “mundo fantasmo”, mundo mágico, desumano… Mundo fantástico, mundo caótico. Mundo tirano!
Mundo novo, mundo velho, mundo mãe, mundo, um ovo! Mundo, um moinho… Mundo, mundo, mundo…