Pé na estrada…

“Logo cedo, pé na estrada… Pra não ter porém…” Gil tinha razão, o lance era sair cedinho. Mochila nas costas, um stop na padaria pra manguiar um pão quentinho e zarpar pra BR, afim de uma carona que nos levasse pra cidade mais próxima…

Era assim, nessa batida, que a malucada da estrada, ia conhecendo o Brasil, de norte a sul, leste a oeste… Conhecendo de verdade, o Brasil de dentro pra fora…

E nessas andanças, os encontros e desencontros, a troca de afetos e noites compartilhadas sob o céu estrelado de um vilarejo qualquer. Os andarilhos se encontravam e se reconheciam em qualquer lugar do mundo. Mas também entre eles, havia uma estécie de castas. Existiam os malucos astrais, os micróbios, os artês, os malucos de city, e até os malucos burgueses… Ah! e os malucos “caixão e vela preta”, esses eram da pesada mesmo, baixo astral total! Muito piores que os micróbios. Pois entre os micróbios tinham ainda, os micróbios astrais…

Mas o grande barato mesmo, era a vida nômade que levávamos, as surpresas e mudanças diárias. Éramos realmente, metamorfoses ambulantes. E curtíamos Raul, Novos Baianos, Caetano, Gil, Mutantes…

E olhávamos os lírios dos campos, e éramos como eles. Nem Salomão se vestiu com tanta glória!

Os nossos desessete anos eram leves como penas de gansos, e a liberdade nos ornava o corpo e a alma. E tinhamos uma inocência tão doce… Como já não existe mais. E uma alegria à flor da pele. E o sexo também era a flor da pele, livre e inocente.

Esse texto aqui está muito fora de moda e muito nostálgico. Piegas mesmo! Mas desde aquele tempo, eu imaginava que um dia isso soaria assim. Talvez, alguns poucos, pouquíssimos, gatos pingados, saibam de verdade do que estou falando. E não é só das caronas, das gírias, das vestimentas floridas, coloridas, exageradas, exuberantes, nem é só da calça desbotada, dos cabelos longos e despenteados, e nem é só do amor-livre, do sexo á flor da pele, nem do poder da flor, “flower power”! Nem dos desessete anos de sonho e de sangue e de América do sul, nem de tomar banho nu, e fumar baseados e fazer viagens de ácido, nem de tocar violão, nem sobre acabou chorare, ou quem não dormiu no sleep bag nem sequer sonhou… Nem “minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”… Não é nada disso!

Mas é sobre uma coisinha de nada… Que nem mesmo sei explicar…