Porto Seguro era um porto… Seguro.

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No Início dos 70, Porto Seguro começava a receber os primeiros “malucos”, cabeludos, hippies…De todo canto do Brasil e de outros lugares do mundo.

Claro que desde os anos sessenta pintavam esporadicamente alguns mochileiros… Malucos. Remanescentes dos “beat”… Mas isso é outra estória.

A cidade tinha uma coisa gostosa no ar. Um cheiro, uma cor, uma magia… Sei lá o que.

As noites eram meio âmbar, uma luminosidade vapor de sódio, que permitia observar e curtir a lua, as estrelas… As pessoas ficavam até tarde sentadas nas portas de casa, conversando, contando estórias de trancoso. O pessoal de fora se misturava com os nativos harmoniosamente. Trocando experiencias e afetos.

Só tinham uns dois restaurantes na cidade, o principal era “A marisqueira”, em frente ao posto de gasolina. E tinha o hotel “Vela Branca”,chiquérrimo! Uma ou outra pousadinha, umas duas lanchonetes, algumas poucas barracas na praia. A mais interessante mesmo era a de Alfredo e Regi. E a “Bolas Azuis”, que era totalmente surreal.

Algumas poucas lojinhas… Depois surgiram outras bem alternativas, que funcionavam nas próprias casas onde se moravam, e os janelões viravam vitrines.

Ah! tinha “O cafona”, que era uma mistura de bar, restaurante e boite, onde as pessoas iam dançar de dia, antes ou depois da praia e a noite até as tantas. Era o point, onde todo mundo se encontrava.

Os cafés da manhã eram servidos nas casas de algumas famílias, que cobravam bem baratinho pelo serviço, alí na rua da praia, que tempos mais tarde virou a “passarela do álcool”, destino triste pra uma rua tão linda.

Depois “O cafona” ficou cafona mesmo, e todo mundo passou pro Cavalo Marinho, que era bem mais astral e diferente de tudo que já tinha rolado antes. Era lá no Paquetá.

A cidade alta começava a abrigar os malucos que resolviam morar em Porto. Era o melhor lugar pra se morar. Menos agito do que a cidade baixa e um visual insubstituível.

Foi então que surgiram os primeiros atelier’s de arte e artesanato. Mocassins, roupas, bijuterias, pinturas, esculturas… E consequentemente começaram a pintar restaurantes, pousadinhas, barzinhos…. O que tornou a cidade alta um ponto de encontro também.

Teve um ano que pintou um bar, cujo nome não me lembro, mas era um barato. Luz de velas, vinho gostoso servido nuns copos de barro, um lance bem medieval, que a gente se amarrava…

A rapaziada gostava mesmo era de andar descalça, ou então de sandália japonesa.  Era assim que se perambulava a pé pelos arredores de Porto Seguro , Trancoso, Arraial D’Ajuda, Caraíva, Santa Cruz Cabrália, Santo André, Corumbau… E as vezes nem tinha estrada, era abrindo caminho por dentro do mato. E muitos ácidos,  cogumelos… Corujas e pirilampos, entre os sacis e as fadas.

A marijuana rolava solta, praticamente liberada. Toda noite tinha festa na casa de alguém. Muita gente fazia um som, por isso tinha muito lual, não com esse nome. Aliás com nome nenhum. Simplesmente nos encontrávamos na praia pra tocar, cantar, fumar e namorar. Um certo dia, apereceram uns cabeludos super estilosos, era “O terço”, uma banda de rock, famosa. Ficaram uns dias por lá, de rolé… Depois sumiram. Eram apenas mais “uns” cabeludos que iam e vinham.

Pintou muita gente bacana nessa década, por lá. Claro que alguns micróbios também, é inevitável, mas normal. Nada que abalasse a paz e o astral do lugar.

Um dia resolvemos criar uma feira hippie, jóia! Primeiro na rua da praia, depois mudamos pra praça da Bandeira. Onde ficou por muitos anos, até virar outra coisa, qualquer coisa, menos feira hippie.

Pois é… E o mais incrível de tudo era o cheiro de Porto Seguro. Um cheiro… Não sei se de mar, ou de mangabas, ou de pitangueiras… Patchouly… maconha… Ou tudo misturado! Um cheiro indefinível… Especial.

Voltei outras vezes depois. Mas não senti mais aquele cheiro. Aliás não senti cheiro nenhum, a não ser o cheiro gostoso do acarajé de Dora.

Hoje, Porto Seguro é só Porto Seguro. Nada mais que isso.

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Eu acredito em muriçocas…

fada-colorida.gifGnomos, fadas, duendes, elfos e afins…duendevoando1.gif

Povoavam nosso imaginário com uma certa intimidade, e se materializavam,

com toda beleza e exotismo, que lhe são peculiares,

durante as nossas viagens alucinógenas.

Especialmente as viagens feitas com substâncias provenientes da natureza,

tipo cogumelos, ayauska, lírio corneta…

Tais eventos eram embalados e sugestionados por livros como

O Senhor dos Anéis e similares, que rodavam de mão em mão naquela época de desbunde.
E ainda canções dos Mutantes, Secos e Molhados…

O universo dos seres elementais, anjos e arcanjos nos interessavam

e nos encantavam, embora não soubéssemos muita coisa sobre o assunto,

nem mesmo separar lenda, imaginação, folclore, “viagem”, realidade.

Era tudo muita fantasia, e neguinha e neguinho viviam se esbarrando

com duendes e gnomos nos jardins e quintais e até em baixo da cama.

Sem contar que ainda tinha uns que também viam sereios. Sereios mesmo, não é sereias, não! Mas isso é uma outra estória… (Depois eu conto.)

É por essas e outras que até hoje eu acredito em muriçocas… Resquícios, maluco! resquícios…duendepiscandoolho.gif

Cogumelos! Cogumelos! Cogumelos!

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Era a maior alegria! Um monte de maluco correndo pelos pastos do Recôncavo Bahiano, procurando cogumelos, nas manhã de sol, preferencialmente após um dia de chuva.

É quando eles brotam, como uns chapéus dourados, talvez por isso o apelido de chapeleto, chapéu de ouro, chapéu de duende… Não estou falando de cogumelos tipo shitake, shimeji, fungh… Não! É cogumelo alucinógeno mesmo,(cogu, para os mais chegados) desses que dão barato! Mesmo que cobrem caro depois. Pois assim como a viagem pode ser maravilhosa, pode ser uma bad trip também. Os efeitos colaterais podem não rolar pra uns, mas podem ser terríveis pra outros. Como várias coisas nessa vida né?

Tinha uns malucos que ficavam cheio de furúnculos depois de comer, ou tomar o chá de cogumelos. Eu, graças a Deus nunca tive nada. Tive foi muita viagem fantástica, pelos labirintos da consciência cósmica, descortinando o espaço sideral. Viagens astrais! Viagens interiores, profundamente interiores. Viagens enigmáticas… Loucas!

Mas os tempos eram outros… E o que a gente queria era a espansão da consciência, o auto conhecimento, experimentar outras dimensões, ou simplesmente viajar… Mas pra voltar melhores do que éramos. Embora as vezes perdêssemos o senso de direção. Alguns não encontraram o caminho de volta e ficaram por lá. Para sempre! Outros voltaram mas se esqueceram de tudo. E outros continuam sendo eternos viajantes sonhadores delirantes.

CALEIDOSCÓPIO…

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Embora tenha curtido o caleidoscópio como uma das minhas primeiras viagens psicodélicas, não me contetei apenas com isso. Eu queria desvendar aquele mistério…

Ficar ali horas e horas rodando em direção a luz, aquele tubo de papelão (ou pvc) cheio de fragmentos de vidros coloridos, miçangas e pedrinhas semipreciosas que formavam desenhos psicodélicos, mandalas… Sem se repetir. Era um grande barato, que passava de mão em mão, como o baseado. Naquela época todo mundo queria ter um caleidoscópio. Adultos e crianças! Foi por isso mesmo que eu pensei em diversificar. Todo maluco, inclusive eu, tava mesmo fazendo bijú (pulseiras, colares e afins). A concorrência pra caleidoscópio era zero. Desmontei um e repeti passo a passo o trampo. Ficou massa! Super personalizado! Recoberto com durepox, cheio de pedras e búzios incrustados. Uma obra de arte!

Por um bom tempo vivemos as custas de caleidoscópios, que “fabricávamos” e saíamos pra vender nos bares, porta de cinemas e teatros, shows… Praças… Depois ensinamos a mágica a um bocado de gente… Fizemos até oficina.

Bons tempos aqueles anos, dos “mangueios”, feiras hippies, muito papo e artesanato. Muita viagem! E a gente tinha a capacidade de se encantar com tudo… E delirar.

Dia desses encontrei na casa de uma amiga um remanescente, feito por mim, todo velhinho, empoeirado… Mas quando coloquei no olho, mirei pra luz e rodei… Êta viagem!

Reggaeeeeee!

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“O GRANDE ACONTECIMENTO MUSICAL DOS ANOS 70 NÃO VEIO DA EUROPA NEM DOS ESTADOS UNIDOS, OS COSTUMEIROS DONOS DO JOGO. FURANDO O BLOQUEIO, VEIO DE UMA ILHA POBRE E MESTIÇA DAS AMÉRICAS, EX COLÔNIA, COMO TODOS NÓS: JAMAICA. SEU NOME É REGGAE, E OS WAILLERS SÃO SEUS PROFETAS

(Jornal de Música, 26 de dezembro de 1976)

” A música dos Waillers é fruto de um movimento de gente muito grande, é fruto do movimento de negros através da América, através do mundo. Cultura ancestral e moderna, a única que pretende levar o homem em liberdade através das estrelas”

(Júlio Barroso, Jornal de música/ 1976)
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O arroz nosso do dia-a-dia…

Uma quantidade de arroz integral catetomacrobiotica1.gif

e três quantidades de água.

Antes dê uma tostada no arroz, na panela sem óleo.

coloque a água, que já pode estar quente, um pouquinho de sal e deixa cozinhar em fogo brando até que fique sequinho.

É só colocar um pouco de gersal e comer com o hashi, que fica mais gostoso ainda…

Pois é… A alimentação macrobiótica foi o grande lance da década de 70. Trazida do Japão por Flávio Zanata e Tomio Kikuchi. Logo foi apelidada de Macrô e virou o grande barato da geração alternativa, que começou a chamar a comida convencional de careta. E muita gente entrou na onda de buscar a iluminação através do arroz integral.

A macrobiótica utiliza os princípios do yin e yang e enfatiza os cereias integrais cultivados naturalmente, assim como os legumes e produtos de soja fermentados (missô/ shoyu…)

além do banchá (chá verde de 03 anos), feijão azuky, frutas (ocasionalmente), ameixa salgada (umebosh), algas,  uma variedade enorme de alimentos saudáveis, fazem parte da alimentação macrobiótica.

Mais que uma alimentação a macrô é uma filosofia de vida, que virou moda nessa época, e os restaurantes tornaram-se pontos de encontros da malucada.

Em Salvador os point’s principais eram “O grão de arroz” , e o “beco do mingau”. E Gilberto Gil foi um dos grandes divulgadores e seguidores da macrobiótica.

Dito e certo…

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“O cinema como conhecemos até hoje, acabou.

Porque hoje existem câmeras de oito milímetros e qualquer pessoa

pode comprar uma e começar a filmar”.

(O ator Pierre Clementi a Glauber Rocha, abril de 1970)

Música Brasileira…

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“Ai, ai, meu Deus

o que foi que aconteceu/

com a música popular brasileira?

Todos falam sério, todos eles levam a sério/

mas esse sério me parece brincadeira’.

(Rita Lee e Paulo Coelho, “Arrombou a festa”, 1977)

O Jingle…

jeans.jpg“LIBERDADE É UMA CALÇA VELHA,

AZUL E DESBOTADA.”

(Jingle da calça US TOP, 1972)